Artesãs pajeuzeiras: protagonismo moldado com arte



Mãos que moldam, mentes que criam, recriam o mundo a sua volta e o mundo dentro de si. O artesanato, arte que tradicionalmente faz parte da cultura de muitas pajeuzeiras e alguns pajeuzeiros, antes de fonte de renda, é, sobretudo, alegria e refúgio das mãos e mentes que modelam.

Atualmente, o artesanato tradicional vem mesclando-se a novas técnicas, compartilhadas e até de fora do Pajeú, mas que mesmo assim não tiram a marca dessa gente que inventa. Por isso, procuramos guiar nossa reportagem em duas frentes: as artesãs veteranas e as mais novas que aprenderam o modo de fazer nos meios de comunicação, que usam resíduos sólidos como matéria-prima. As encontrei na rua de casa e no Mercado Público Municipal, numa área reservada ao artesanato. No entanto, buscamos tratar não do artesanato como técnica, mas sim como um elemento social, que é. Destacando as atrizes sociais que costuram essa arte.

Passando na Rua Sete de Setembro, no Bairro São Francisco, diariamente me deparava com a figura de uma senhorinha e suas bonecas com vestidos de crochê rodado. A pesquisa para essa reportagem oportunizou-me descobertas sobre a figura anônima que me causava curiosidade. Geronias desde menina aprendeu com sua mãe e vizinhas, apenas olhando o movimento da agulha, em suas rodas de conversa na zona rural. Aprendeu as técnicas de crochê, tricô, tenerife, macramê, labirinto, rolete, bordado à mão e à máquina, ponto cruz e vagonite, renascença e pintura. Alguns desses saberes já se esqueceu, outros não consegue mais desenvolver por causa da visão. Apesar dessas mais de dez artes, disse ela, que gosta mais de fazer ponto cruz e crochê. A artesã é uma das poucas que guardam o saber tradicional que vem do tempo onde as linhas eram apenas de carretel e ainda se usava tear. Adaptou-se à máquina, mas não larga a agulha e continua sua criação como quem borda a própria vida.

Como a de dona Geronias, vidas de mulheres mais jovens, adultas, idosas também parecem guiadas pela arte de criar e recriar. O fazer artesanal é colocado como uma saída para a vida emocional, econômica, mas é principalmente uma oportunidade de socialização entre as mulheres, pois, no Mercado Público Municipal, além de expor seus trabalhos, partilham suas vidas. Afora de promover a socialização, a Área de Artesanato, aberta ao público em dezembro de 2015, é caracterizada pelas artesãs como oportunidade de sair do anonimato. Diferente de Geronias, que aprendeu quando criança, o artesanato nas vidas das demais é uma forma de esquecer problemas, de fortalecimento contra a depressão e os problemas da vida.

Na exposição, podemos nos deparar com vários tipos de artesanatos: bordados, reciclagem, customizações, bijuterias, aplicações, arte em gesso, arte em biscuit, costura, entre tantas outras diversidades. Para as artesãs, a arte é, antes de produto, um ato pessoal de vida, todas relataram que gostam de fazer, criar, recriar. Estas artesãs também ensinam a suas filhas. Inclusive são, por vezes, elas quem estão comercializando seus produtos e os de suas mães.

Ser mulher artesã, segundo elas, é um difícil bordado diário, pois precisam conciliar os afazeres domésticos com a arte das mãos. Mais complicado ainda é para as mulheres rurais que, além da casa e do artesanato, precisam trabalhar na roça. Além de complemento constante da renda familiar, nos períodos de estiagem e seca, onde a agricultura não provê, o artesanato passa a ser o principal trabalho produtivo da família. Para algumas, urbanas ou rurais, a venda de seus produtos é a renda que elas têm autonomia de administrar, porque ainda nos deparamos com famílias que os homens proveem e administram a maior parte da riqueza.

Deparamo-nos com tantos “M’s” e Marias. Diversas em seus afazeres, nas formas que aprenderam: algumas na escola, outras na televisão, com amigas, família, cursos e grupos. Parte delas está engajada em grupos de artesãs como o Grupo de Mulheres Agricultoras Artesãs de Nazaré e o Artesanatos Pajeú, que há cerca de 10 anos reúne mulheres e artes com o objetivo de se fortalecer, pois a organização em grupo facilita o financiamento e a comercialização. Alguns grupos fazem parte da Rede de Mulheres Produtoras do Pajeú, entidade que desde 2006 articula e apoia, em 10 municípios do Pajeú, 30 grupos de mulheres produtoras e uma das formas mais presentes de produção é o artesanato. Segundo Branca, que faz parte da equipe técnica da Rede, apesar de muitos homens não valorizarem essa arte, o artesanato na vida das mulheres é um caminho para a libertação e o empoderamento.

Texto Uilma Queiroz | Fotos Claudio Gomes