Como surge a inspiração?

Por ser poeta, talvez seja essa a pergunta que mais escuto das pessoas e, tenho certeza de que os demais poetas recebem essa indagação. Acredito que a curiosidade delas seja em saber como é que surge a poesia em nossa mente: se ela chega ou se vamos atrás dela. Como eu nunca preparei uma resposta para isso, sempre percebo que o “perguntador” sai com a sensação de que eu não expliquei nada, embora tenha tentado. Acontece que eu também fico com a sensação de que não consegui explicar direito. Talvez agora, com calma, eu consiga esse feito. Talvez!

De pronto se faz importante dizer que, segundo o dicionário, inspiração quer dizer: iluminação, lampejo. Então, inspirar-se é achar um motivo para fazer a criatividade florir. E quando falo em “achar”, parece que é algo que a gente vive procurando, não é mesmo!? Mas aí, segundo o que eu acredito, é que está o segredo da inspiração: ela não é fácil de ser encontrada, pois é ela que vem à nossa procura. Então, a menos que o poeta seja repentista ou glosador (que tenha que fazer a poesia naquele exato momento, por uma prazerosa obrigação), creio que o poeta de bancada deve aguardar, com calma, a inspiração chegar. Do contrário, a poesia sai sem alma, como se tivesse baseada somente nas técnicas de metrificação e rima. Afinal, rimar e metrificar são regras de matemática, que qualquer pessoa pode aprender, mas, colocar alma na poesia, é para quem recebeu o tal lampejo, a tal iluminação.

E como eu descobri isso? Na prática, fazendo justamente o que acho que não é para ser feito: tentando, de toda forma, fazer uma poesia porque estava com vontade. Resultado: joguei-as fora, pois não senti verdade nelas. Por isso que hoje, às vezes, passo meses sem fazer uma única. Chego até a pensar, nesses intervalos, que não sou poeta, que tudo foi uma invenção ou que Deus resolveu tirar o dom de mim, mas aí, eis que de repente, surge uma ideia e faço um poema. É a inspiração que resolveu voltar.

Por isso que a respeito muito. Acredito, sinceramente, que ela é Deus ditando algo que tem vontade de dizer. É como se nós, poetas, recebêssemos Dele uma procuração com amplos poderes sentimentais. Aí, quando ele quer dizer alguma coisa, procura um poeta e solfeja aquilo em seu ouvido. Por isso que não vejo motivo algum para arrogâncias e prepotências por parte de poetas. E, talvez, eu pudesse trocar tudo o que disse até agora por essa poesia que Deus ditou para mim:

Triste do vate que pensa
Ser dono da inspiração
Que o poeta é um instrumento
Do que Deus diz, cá no chão.
Versos que o poeta “reve”,
Deus dita, ele só escreve
É assim nos versos meus.
Então viva a humildade
Que o poeta é, na verdade,
Uma caneta de Deus.

Texto Vinicius Gregório