Cultura e Escola: que relação é essa?

Falar sobre Cultura ou Educação já é um grande desafio imposto pelas diversas visões ou “correntes de pensamento” que discutem cada conceito e buscam conquistar espaços cada vez maiores para sua forma de pensar. Então, ponderar sobre a relação entre os dois é desafio em dobro! Praticamente, colocar a mão em cumbuca! Mas... quem for sertanejo e num for buliçoso que atire a primeira pedra!

Do verbo latino colere, na origem cultura significa o cultivo, o cuidado, aquela ação que faz brotar, frutificar, florescer! (Ó! Que imagem linda!). No século XVIII, com a Filosofia da Ilustração ou Iluminismo, a ideia de cultura ressurge como sinônimo de civilização. Quanto maior o padrão de cultura de uma sociedade, mais civilizada ela seria.

Com o surgimento da antropologia no século XIX, a Europa capitalista é tomada como padrão para medir a evolução ou grau de uma cultura. Quanto mais uma sociedade desenvolvesse formas de Estado, mercado e escrita diferentes do Estado europeu, mais “cultura primitiva” ela seria.

Apenas a partir da segunda metade do século XX, com a antropologia social, a cultura passa a ter uma abrangência maior. Passa a ser vista como a produção e criação da linguagem, da sexualidade, da religião, das relações familiares ou de poder, da forma de viver o amor, a vida, a morte, das expressões de lazer, música, dança, vestuário, culinária, habitação. E é diante desse conceito ampliado de cultura que devemos procurar responder: numa sociedade dividida em classes que, como enfatiza Marilena Chauí, não conserva os princípios de comunidade, como se preserva a ideia desse conceito popular, laico e democrático de cultura? Imagino que seja aí... nessa curvatura da vara, que a educação entra.

A educação ocupa um lugar de destaque nessa questão porque tem a possibilidade de dar ao sujeito condições de autorreflexão crítica, arma vital no enfrentamento das pressões sociais que homogeneízam, desintegram a individualidade, desumanizam. A educação pode afirmar a cultura como um direito, opondo-se às políticas neoliberais que buscam legitimar a cultura como serviços ou coisas que podem ser vendidas e compradas, indicando status social ou privilégio de classe.

Num contexto onde a educação tem sido fortemente abordada por visões economicistas que impulsionam, num entendimento azevediano, a criação de uma mercoescola, é urgente pensar: a escola pública tem negado ou fortalecido a compreensão da cultura como direito humano? Que cultura é essa priorizada no currículo escolar? No currículo da nossa escola pública e sertaneja?

É a cultura que fala de todas as questões de gênero moldadas pelo barro das artesãs de Brejinho? É a cultura que debate o modo de vida e o legado sertanejo que pulsam nas cores de Edierck José? É a cultura que soa nos cânticos quilombolas que embalam o coco de roda no Leitão da Carapuça? É a cultura que deleita e embriaga os versos de Dedé Monteiro ou os risos oriundos do sarcasmo de Pinto – a cascavel do repente?

Não?! Não é essa a cultura presente no currículo das nossas escolas – púbicas e sertanejas? Resta questionar o porquê dessa ausência. Que ideias subversivas essas expressões culturais poderiam trazer? Seria possível que essa produção cultural questionasse aquela que busca legitimar a exploração econômica e a exclusão social?

Em recente entrevista, o múltiplo artista Antônio Nóbrega afirmou que “nosso universo de cultura popular foi capaz de edificar ao longo de séculos uma rica catedral de imaginário simbólico. Se isso for trazido à tona, pode ajudar nos nossos processos educacionais e artísticos”. Já temos, felizmente, tentativas de trazer à tona todo esse potencial de humanização presente nas atividades desenvolvidas pela escola quando aborda a arte e a cultura popular.

Primeiro, percebemos ações pontuais, como a realização de projetos de leitura que focalizam a cultura popular e, depois, observamos iniciativas mais marcantes: em 2014, São José do Egito, por exemplo, implantou a disciplina Poesia Popular na grade curricular do ensino fundamental municipal, bem como, passou a desenvolver curso de formação para os professores da referida disciplina. Em Pernambuco, há a discussão da adoção de pelo menos um livro escrito por autor pernambucano como paradidático nas escolas públicas e privadas do Estado. São caminhos que se abrem, espaços que, uma vez ocupados, não podem deixar de ser fortalecidos e ampliados. A cultura popular agradece. Aqueles que se libertam da cultura volátil e mercantilista, também.

Texto Wivianne Fonseca