Muito mais do que se possa dizer


Era um 28 de janeiro, dia de São Tomaz de Aquino. O ano 2016. Mas fomos convidados para uma festa de São Brás. É que as comunidades católicas, geralmente, reverenciam seus santos por toda uma semana. O dia de São Brás mesmo é o 03 de fevereiro.

O convite foi para uma Mesa de Glosas. O estendi aos poetas Diomedes Mariano, Wellington Rocha, Elenilda Amaral e Thiago Gomes. Dei-me a função de mediador. E ainda a de criação dos motes. E optei por motes que estimulassem o que há de cronistas em nossos poetas. Para isto, busquei o factual.


Pois bem, lembrei que alguns dias antes o Excelentíssimo Senhor Ministro da Saúde, Marcelo Castro, saiu-se com uma ótima. Quando todo mundo esperava uma posição enérgica do Governo frente aos catastróficos avanços da dengue, da zika e da chikungunya, o comissionado foi, no mínimo, previsível. Disse que o Brasil estava perdendo a guerra contra o mosquito. Pronto. O ministro é poeta. Deu o mote prontinho, metrificado, com opções de rimas e com muito pano pra manga.

Eu o lancei originalmente: O Brasil está perdendo / A guerra contra o mosquito. E assim a nossa poeta-repórter-cronista Elenilda Amaral publicou:

Isso não é brincadeira
Paremos para pensar
Que o mosquito vai ganhar A guerra dessa maneira.
Nossa gente brasileira
Precisa fazer agito,
Fazer campanha, dar grito,
Pra não ver gente morrendo
O Brasil está perdendo
A guerra contra o mosquito.

Na mesma época o sistema penitenciário de Pernambuco foi destaque internacional. Duas fugas em massa, num intervalo de três dias entre uma e outra, levaram às ruas mais de uma centena de detentos. A primeira foi na Penitenciária Barreto Campelo, município de Itamaracá, e a segunda, no Complexo Prisional do Curado, no Recife.

A população, especialmente os vizinhos das unidades, viveram momentos de pânico. Mais caos no transporte público, tiroteios, blitzen, tudo aliado a outras tantas ocorrências, levaram, como tem levado constantemente, a sociedade a um contraponto: os presos buscando a liberdade e os libertos buscando a prisão em suas próprias casas. Então propus o mote: Os presos tão se soltando / E os soltos tão se prendendo.

Diomedes Mariano apurou rápido e manchetou:

Lá em Itamaracá
Aconteceu fuga em massa,
Presos ganharam a praça
Fugiram feito preá.
Cavaram túnel por lá
Saíram às pressas, correndo,
E o povo em casa temendo
Cada vez mais se trancando
Os presos tão se soltando
E os soltos tão se prendendo.

Thiago Gomes, por sua vez, foi fiel à pauta sem abrir mão do lirismo:

Não tô indo mais na rua
Para não levar um tiro,
Nem sei como mais me inspiro
Sem poder olhar pra lua.
Essa é a verdade crua
Do que está acontecendo:
A educação perdendo
E a bandidagem ganhando
Os presos tão se soltando
E os soltos tão se prendendo.

E o mundo político fácil me deu outro mote. Comecei a me dar conta do quanto esse povo é poeta. Tinha dito Lula, ele mesmo, o ex-presidente, também há alguns dias, que não há neste país uma viva alma mais honesta que ele. É ou não é um poeta? Só precisei metrificar e lancei o mote: Não existe no país / Um mais honesto que eu.

Wellington Rocha foi o que se espera de um plantonista de redação:

O que está acontecendo?
O país perdeu o rumo
Economia sem prumo
E o real falecendo...
Tem bandido se escondendo,
Roubando do ganho meu
Vão roubar também o seu
Inda vem dizer Luiz:
Não existe no país
Um mais honesto que eu.

Já a notícia do dia, quentinha, tinha sido a suposta omissão de patrimônio por Lula (ele de novo) de um cobiçado triplex em nobilíssima área litorânea de São Paulo. No mesmo mote anterior, Diomedes Mariano demonstrou o quanto o poeta está antenado com as coisas do seu tempo. E como bom ativista questionou, embora já soubesse da resposta do interrogado:

Lula disse a mais de cem:
“Contra ladrão sou blindado
Tenho meu dedo cortado,
Mas nunca roubei ninguém.”
E o triplex que ele tem,
Quem gota serena deu?
Perguntam quem lhe vendeu
Em resposta ele só diz:
Não existe no país
Um mais honesto que eu.

Na cena local, a semana guardava um fato dantesco. Com a ignóbil alegação de que um cachorro havia comido um tira-gosto, um homem matou o animal a pauladas. Eu quis referenciar o fato, mas procurei ser mais genérico. Abri espaço para que os poetas, a partir da cena relatada, discorressem sobre a corrente banalização da vida, da opção fácil pela crueldade e pelo desamor. O bicho-homem era o alvo. E o mote foi: Quanto mais conheço mais / Desconheço a humanidade.

Diomedes Mariano mais uma vez foi apuradíssimo:

Foi aqui neste local
Que este fato aconteceu,
Um cão com fome comeu
A carne de outro animal.
O bruto irracional
Virou vítima da maldade
Do racional que invade
Gestos irracionais
Quanto mais conheço mais
Desconheço a humanidade.

E pra fechar este caderno sócio-político-cultural, dei mais liberdade aos redatores. Apresentei um mote com um só verso: Com as bênçãos de São Brás.

Era só uma despedida alusiva ao bairro e ao santo homônimos. Mas parecendo coisa do céu, como dizem os mais crédulos, Elenilda Amaral é devota do santo, sendo este o protetor da garganta. Aí ficou fácil. Ela já tinha vivenciado esse verso:

Já fui muito ao hospital
Pra tomar tanta injeção
Porque tinha inflamação
De garganta sem igual.
Hoje nem um melhoral
Eu preciso tomar mais.
Minha voz não se desfaz,
A garganta está potente
Fui curada, minha gente,
Com as bênçãos de São Brás.

E ponto e pronto. Pode publicar. Eis um compêndio do que são nossos poetas. Muito mais que eles. Muito mais do que se possa dizer sobre eles. Eles que o digam.

Texto Alexandre Morais | Foto Thiago Caldas