Um poeta (re)vestido de arte

O telefone tocou assim que avistamos a torre da Igreja Matriz de São Pedro, o padroeiro de Itapetim. Do outro lado da linha, o anfitrião mor da cidade – porque tem título vitalício – orientava que não deveríamos seguir em direção à bela Praça Poeta Rogaciano Leite, como faz a maioria dos visitantes. Mas seguir em frente, mantendo- nos na Rodovia do Repente. Mais adiante, um sorriso se abriu em meio a um rosto redondo de cor róseo-sol do sertão. Abaixo do sorriso, uma camisa modelo único, bem ao estilo do portador. Dentro da camisa, um poeta. Ou o poeta. O poeta Zé Adalberto, um homem que é arte em estilo, gestos, sentimentos e em pessoa. Cumpridas as saudações de praxe, seguimos para o nosso Papo de Boteco. O local escolhido foi o Bar de Damião, um primo de Zé, no Sítio Mocambo, um recanto esticado para os lados da Paraíba. Lá, provocado por Alexandre Morais e Genildo Santana, o poeta falou dos muitos Zés: o criança, o homem, o família, o compositor; suas dores, alegrias e esperanças. Agora a Revista Pajeuzeiro revela o que muitas vezes só uma roda de copos (e garfos) pode revelar. As fotos são de Thiago Caldas.


O início
Eu fui o Zé da roça, sem perspectiva de nada, sem um livro pra ler. Até os 16 anos eu não tive esperança nenhuma. O que eu imaginava era ser um agricultor como meu pai foi. Viver da roça e só. Trabalhei em frente de emergência e antes acompanhei meu pai nas frentes, pensando em comer umas bolachas doces que às vezes ele comprava. Com a poesia, eu comecei na escola, muito tímido, escrevendo umas estrofes e sem nem mostrar a ninguém. Não imaginava ser o Zé que sou hoje, ideologicamente evoluído.

Santo de casa
Eu sou um pecador como todos os outros e acho até que Itapetim me dá uma atenção maior do que a que eu mereço. Esse ditado de que santo de casa não obra milagre aqui se atribui à cidade como um todo. É Itapetim que vive obrando milagres sobre mim e sobre todos. Agora, também tem muito santo fora de atividade e por isso não é visto no altar onde deveria estar. Daí, eu escuto alguns reclames, uns pedidos de espaço, mas vejo que tem as duas coisas: a falta do chamado e também a busca por quem quer ser chamado.

Itapetim
Quando eu fiquei fora de Itapetim, estive até depressivo. Eu tenho uma dependência muito grande desse lugar. É onde eu me sinto bem e onde eu quero permanecer. Se tivesse de mudar seria para a zona rural, pra um ambiente tranquilo... ficar ouvindo os passarinhos, escrevendo meus versos... eu não queria mais que isso, não.

A poesia
A poesia enriqueceu minha alma. Através da poesia, eu conheci muita gente boa, fiz muitas amizades, subi em muitos palcos, fui a lugares que eu não imaginava ir. Por isso eu olho pra poesia com muita responsabilidade. Esse dom não é brincadeira, não. A gente tem que saber lidar, se valorizar, não ser egoísta, não ser mercenário e não ser omisso. Não deixar que a arte seja utilizada de forma fútil ou por pessoas que às vezes querem tirar proveito seu ou do seu trabalho.

Genética
Na minha árvore genealógica eu só tive Biu Doido como ascendente poético. Biu Doido ou Biu Cassiano era meu tio-avô. Ele tinha aquela poesia própria, que não seguia essa estética nossa, mas tinha muita lógica. Havia também um irmão de Biu, por nome de Francisco, que cantava de viola. Mas era distante e morreu lá pro lado de Rondônia. Por gostar muito e acompanhar as cantorias, eu cheguei a arriscar umas cantorias. Não tocava a viola, mas botava os dedos na posição que ensinavam e fazia alguns repentes. Só que parei logo. Vi que não dava certo.

Rogaciano Leite
Eu não aceito a comparação que alguns fazem com Rogaciano. Ele era um gênio e eu talvez nunca alcance a obra dele, porque ele era muito profundo e eu sou mais rasteiro, mais popular. Não porque eu busque isso, mas porque não consigo ser diferente. É coisa de estilo mesmo. Então minha relação com Rogaciano é de um apreciador. Já ouvi e até já concordei com algumas críticas, porque ele tinha deixado a terra natal, mas hoje eu vejo que ele fez o que tinha que fazer mesmo. Uma terra, às vezes, é muito pequena para um gênio do porte dele.

Os Nonatos
Nós tivemos uma amizade muito próxima durante uns 15 anos. Eles frequentaram muito Itapetim e a gente sempre se encontrou. Com isto celebramos algumas parcerias. Tem a música Desabafo Sertanejo, no CD Alma de menino, que é uma parceria minha com Nonato Costa, na letra, sendo a melodia só minha. E surgiu uma conversa de um desentendimento, mas o que houve foi uma música, chamada Magnífica, que a letra é minha e a música é de Nonato Costa. Luizinho de Irauçuba gravou num CD e nos créditos atribuiu a autoria apenas aos Nonatos. Eu fiquei chateado, mas Nonato me explicou o que aconteceu, eu vi que não houve maldade, e ficamos bem.

Composições
Esse lado não é tão reconhecido quanto é o poeta, mas também acho que seja bem visto. Quando o compositor só escreve, quem aparece é quem canta e muitas vezes nem o nome do autor é lembrado. Mas eu gosto de compor, inclusive melodias. Às vezes eu passo um mês remoendo uma canção no juízo, até que um dia ela acontece. Uma delas é esse eterno pedido de ações para convivência com a seca. O título é “Os home de paletó” e o refrão diz: “Rei Luiz, pede água a Deus de perto / Que a gente pedindo aos home, parece que não dá certo”.

Protesto
Pinto do Monteiro já dizia que só tem duas leis que valem na terra: uma é quando os governantes querem fazer, a outra é quando eles não querem. E é isso mesmo. Então a gente tem a obrigação também de apontar alguns males, de provocar, de tentar atingir alguns poderosos... Mas essa nossa arma não é muito eficaz, não. Porque esse povo é inatingível. Parece que quem tá no poder tá muito bem e não tem tempo pra tá ouvindo esses recados, não. Agora isso tem que ser feito sempre. É uma mensagem de alerta, de despertar... se alguém ouvir e levar à frente já vai valer a pena.

Criações
Já aconteceu muito de eu recitar um verso e surgir uma pessoa dizendo: “Zé, tu fez esse verso foi pra mim”. Outro dia, uma pessoa perguntou se eu conhecia a história dela porque o verso dizia exatamente o que tinha acontecido com aquela pessoa. É isso, a gente às vezes cria um tijolo que se encaixa na parede emocional de alguém. É bem interessante isso. Da mesma forma que histórias reais me levaram a escrever poemas. Tem alguns casos desses no livro Cenário de roedeira. São poemas direcionados, histórias que eu conheci e foram transformadas em poesias. Vejo isso até como uma forma de desabafo, de protesto contra fatos como o machismo, a covardia amorosa e outros.

Roedeira
A minha intenção nunca foi trabalhar só um tema: o amor, a roedeira... eu digo que não busco a roedeira, ela é que me busca. Como eu sou muito sentimental, eu acabo escrevendo essas coisas facilmente. Mas eu posso até ser esse poeta monotemático mesmo, como dizem. Não vejo problema nisso, não. Agora o livro Cenário de roedeira, esse aí foi proposital. Eu percebi que o público da poesia, especialmente a juventude tem demonstrado uma caída por este tema. Então resolvi juntar tudo num livro só e, não sei se consegui, mas o objetivo era preparar uma obra que atendesse a esse público. Agora, é preciso dizer que o Zé pessoa rói pouco, embora já tenha ruído muito (risos). O poeta, na verdade, imagina situações vividas por outras pessoas. De todo meu material de roedeira, talvez 99% seja ficção.

Retrato
Aquele trabalho no mote “Retirei seu retrato da carteira / Sem tirar seu amor do coração” eu tenho ele como minha ressureição poética. Eu tava num momento depressivo por causa de um constante sangramento nasal e já tinha botado na cabeça que se eu fosse poeta e poesia corresse nas veias, eu já não tinha mais poesia. Já tinha perdido tudo. Aí, Felizardo Moura chegou em minha casa apresentando esse mote, que a gente não sabe quem é o autor, e pediu pra que fizesse umas estrofes. No primeiro dia eu fiz só uma quadra, depois a coisa foi surgindo, foi correndo feito água até que eu terminei. Eu tenho aquele momento como uma graça recebida.

Saúde
Este problema de saúde que eu tive me fez melhorar muito como ser humano. Eu tive um sangramento nasal de causa não identificada que me levou a vários problemas e hospitais durante uns cinco ou seis anos. E foi nos internamentos que eu comecei a ler mais, a produzir... quando eu saí de um dos internamentos mais longos foi que eu me senti outra pessoa, com a vida revisada. Foi muito bom ter passado por aquilo.

Família
Quanto mais o tempo passa mais a gente vai descobrindo a importância que a família tem na vida da gente. Eu tenho uma trempe que me sustenta com muito carinho, com muito amor... Meus filhos, Ítalo e Isabely e minha esposa Mazé são meus referenciais, meu porto seguro. O lugar em que eu me sinto melhor é quando eu estou em casa, quando estou ao lado deles. Isabely escreve e declama, Ítalo é músico e Mazé trabalha (risos), embora também seja artista, porque é muito humorista, tem respostas rápidas e muito criativas, além de ser estilista, porque desenha algumas roupas diferentes que eu uso (mais risos).

Momento
Eu vejo o atual cenário positivamente. Sei que sirvo de referência, mas também sei que não sou só eu. Tem muita gente aí ainda produzindo e inspirando as novas gerações. Eu vi gerações passarem sem deixar novos adeptos e hoje a gente ver muitos jovens assimilando essa cultura e colocando o que é bom em lugares que, por estarem vagos, estavam sendo preenchidos por uma cultura enlatada. Isso é muito bom. Quando a juventude abraça uma causa, essa causa vai longe.

O amanhã
Daqui pra frente eu quero continuar produzindo. Espero que a natureza possa me contemplar sempre com a sua poesia, embora saiba que não basta esperar, mas, enfim, não quero parar no tempo. As oportunidades vão surgindo e eu quero estar pronto pra todas elas. Eu tenho o meu trabalho e vejo a poesia como um “bico” sagrado que eu jamais vou abrir mão dele.