Datargnam, a força do Pastoril

Texto | Tarcio Oliveira


A PE-275 corta a cidade de Tuparetama na direção de Sertânia a Brejinho. Um passageiro mais atento, ao atravessar o trecho urbano, de carro ou a pé, verá na calçada de uma casa simples, em frente ao morro do cruzeiro da cidade, uma senhora em sua cadeira de rodas, observando o movimento de veículos e pessoas. Não se engane com sua aparente fragilidade, sem capa, espada ou armadura, é nossa Datargnam, nome de batismo e de arte, pronunciado por nós, tal como se escreve (no feminino), pois aqui quase todos desconhecem a origem e pronúncia francesa do nome dado ao personagem do romance Os Três Mosqueteiros de Alexandre Dumas.

Nossa Datargnam, mestre do folguedo do Pastoril, é uma dessas figuras singulares que condensam em si os significados da cultura local, reforçam a identidade comunitária em seus variados aspectos e cuja participação cotidiana, diria talvez “modo de vida”, reflete uma tradição e tradução das formas de vivência e sapiência do povo. É como citei acima, o que chamamos de mestre, aquele/a que ensina, elemento fundamental para a representação da diversidade. Patrimônio cultural imaterial, tesouro vivo.

Para quem não conhece nossa Datargnam, seria necessário um texto muito mais extenso de apresentação, considerando-se a valiosa contribuição do seu trabalho, daquilo que faz dela uma figura admirável, dos imensos desafios que a vida lhe apresentou. Tem superado todos os percalços, revelando sua veia resistente.

Como todo mestre da cultura popular, em sua trajetória de arte e de vida, Datargnam mais perdeu, em posses e bens, que ganhou até agora. Não conquistou riquezas materiais e decerto bem poucos lhe dão o devido respeito e valor. Já a contabilidade de perdas é alta, inclui entes queridos como filhos e até uma perna para a diabetes (o que limita bastante sua mobilidade e seu trabalho cultural), mas essas agruras expõem a sua verdadeira natureza, essa característica valente e persistente, positivamente otimista, do artista popular sertanejo, pajeuzeiro. É essa faceta de nossa Datargnam que ressaltamos como estandarte do artista popular de Pernambuco, do Sertão, de Tuparetama.

Tuparetama tem um longo histórico de tradição no Pastoril, graças ao protagonismo cultural de Datargnam e seu grupo, pelo qual já passaram centenas de meninas e meninos da cidade. Isto desde o ano de 48, quando se montaram os primeiros folguedos trazidos por Dona Giselda, uma senhora de Olinda que veio pra cá acompanhando o esposo Cipriano, nomeado delegado da localidade. Foi com ela que Datargnam aprendeu as músicas, coreografias e enredo do pastoril, ainda muito criança, e de lá pra cá nunca mais parou. Seu pastoril é uma variante do pastoril religioso, que estudiosos do folclore classificam como pastoril de passagem. Como o objetivo principal do pastoril nessa localidade ainda é a arrecadação de dinheiro nas festas religiosas da cidade e comunidades rurais, a disputa entre os cordões azul e encarnado sempre foi muito estimulada.

Datargnan desenvolve esse relevante trabalho cultural até hoje, com poucos recursos e sem apoio financeiro. Ainda assim, desde 1997, seu pastoril é objeto de estudo da Comissão Pernambucana de Folclore e resiste, fazendo parte da memória da cidade no decorrer desses 70 anos: patrimônio imaterial de cores, sons e cortejos da princezinha do Pajeú. Se nossa mestre-mosqueteira não aposentou ainda suas “capa e espada” é porque tão bem traduz em sua existência os versos do também mestre egipciense: Luto por transformação/ Por educação e arte/ Enquanto houver lucidez/ Erguerei meu estandarte/ Posso não mudar o mundo / Mas eu faço a minha parte. (Chárliton Patriota, no livro Casebres, Castelos e Catedrais, 2011).

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