Forjado em família

Texto William Tenório | Fotos Thiago Caldas


Saímos de Afogados cedo. A viagem durou aproximadamente uma hora. O destino era o Sítio Jatobá, no município de Flores, a cerca de 7km da cidade. Como pouco antes havíamos visitado o local, não tivemos dificuldades em chegar. De longe ouvimos o som agudo das marretas batendo no ferro, som característico da atividade ali desenvolvida.

A oficina é bem grande, feita em tijolo batido sem reboco. Possui duas portas largas, uma em cada extremidade, e quatro janelões, dois em cada lado, o que garante ventilação e uma boa iluminação. Lá dentro os homens trabalhavam. Neste dia eram cinco: seu Zé Milton, um irmão, dois sobrinhos e um tio.



Trabalhavam em duplas, exceto o tio, o senhor Raimundo, que tem 70 anos de idade. “Não tem quem bote ele pra correr do trabalho”, brinca seu Zé Milton. “Meus meninos já correram tudo e ele tá aí todo dia”, completa. “A gente acostuma com o trabalho e não quer parar,” justifica seu Raimundo.

Seu João, irmão de seu Zé Milton, explicou que trabalhando em dupla, enquanto um molda uma peça o outro coloca o cabo e dá o acabamento, tornando o trabalho mais rápido.

A atividade é familiar e aprendida desde cedo. Seu Zé Milton lembra que ainda criança frequentava a oficina para aprender o ofício com o pai. “São 55 anos de porrada” diz, se referindo ao tempo em que trabalha como ferreiro-artesão e alertando que também repassou o aprendizado. “Os filhos estão em São Paulo, mas sabem também”.

“Com 12 anos já ajudava aqui”, diz João Vianei. Hoje com 19 anos é o mais novo na oficina e tem de conciliar o trabalho com os estudos. Ele está prestes a se formar no curso de Técnico de Edificações, mas assim como os filhos de seu Zé Milton, João tem outros planos. “Tenho participado dos encontros vocacionais”. João pretende seguir o sacerdócio.

O trabalho é dividido com a atividade no campo. “Quando chega o período da chuva a gente vai pra roça”, diz seu Zé Milton, justificando não depender da chuva “porque tem trabalho o ano inteiro na oficina”, ao tempo em que coloca mais uma peça no braseiro.

As peças produzidas no Jatobá são vendidas em quase todo sertão. “Deixe eu contar: Arcoverde, Custódia, Serra Talhada, Flores, Belmonte, Salgueiro...”. A produção gira em torno de 100 peças por semana, entre facas, facões e foices, tudo depende do período do ano. Durante as chuvas a produção de foices aumenta.

A atividade tem como matéria prima feixes de mola usados, que são conseguidos em oficinas mecânicas em Afogados da Ingazeira. Os cabos podem ser feitos de madeira, PVC, acrílico e chifre de boi, tudo depende do cliente.

Segundo seu Zé Milton o mais difícil tem sido conseguir a bigorna, ferramenta indispensável para o ofício. “Meu irmão está procurando uma para montar uma oficina e não encontra.” E isto talvez seja sinais do fim de uma atividade que hoje concorre com a produção em larga escala da indústria.

É um trabalho de resistência em uma sociedade industrial. Oficinas como a da família de seu Zé Milton são cada vez mais raras e é impossível não fazer um paralelo entre elas e as sociedades pré-industriais.

Saímos de lá no final da manhã e uma das coisas que mais chamaram a atenção foi a felicidade desses homens enquanto trabalham. Todos sorrindo e conversando, com uma receptividade típica de interior.

Leia a Revista Pajeuzeiro na íntegra: https://goo.gl/e7fCYq