O homem de ferro do forró



Durante todo o encontro ele manteve-se com óculos. Uma composição a mais em seu conhecido biotipo magro, de braços longos, caminhar lento, rosto afilado, barba espassa e cabelos compridos de cor amarelo-fogo. Por trás dos óculos, as marcas de uma recente conjuntivite. No corpo, as marcas de uma história de 75 anos. 54 deles nos palcos. Noites mal ou nada dormidas. Incontáveis viagens. Todas sempre com um destino final: Serra Talhada, de onde nunca achou necessário sair. Estávamos diante do homem de ferro do forró. No registro, Francisco de Assis Nogueira. Na escola, Assis. Mas por haver um colega de igual nome e este ser de baixa estatura, a turma logo batizou este de Assisinho e aquele de Assisão. O local escolhido para o nosso papo foi a estação ferroviária, um lugar que tem a ver com ele. Não a estação de antes, mas a de agora, cultural e abrigo do Museu do Cangaço. Assisão é sobrinho de Zé Saturnino, o primeiro inimigo de Lampião. Mas nem se aperrei, “os dois doidos de pedra” estão é amigos. A Revista Pajeuzeiro conta essa história com produção de Alexandre Morais e William Tenório e fotos de Thiago Caldas.



As origens
Eu nasci na Fazenda Escadinha e com dois meses fui levado pra Fazenda São Miguel, que é vizinha. Foi uma tia que pediu a minha mãe pra me criar. Essa é a fazenda onde viveram Lampião e Zé Saturnino, que era meu tio. Mas minha infância foi só de brincar, aquela história do cangaço não mexeu em nada comigo, não. Eu vivia era brincando e cuidando dos animais. Agora, os outros aboiavam, eu já tangia o gado cantando. Cantava Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga, até Nelson Gonçalves.

Influências
Minha família era muito grande e a fazenda era ponto de parada pros viajantes que viam ou iam entre Floresta e Serra Talhada. Então a casa vivia cheia e com isso muita conversa, muitos causos. Muitos parentes também eram músicos, sanfoneiros, violeiros, cantavam. Eu cresci observando aquilo. Tinha um rádio grande Philips holandês e mais tarde um ABC à pilha, que viviam ligados, tocando música. Na escola, com cinco, seis anos eu já fazia uns versinhos cantados e com 15 anos eu já tava nos forrós cantando pra chamar atenção das meninas. Daí então começaram os convites pra cantar e eu comecei a compor.

Primeiras músicas
Minha primeira composição foi Forró em são Francisco (canta): quem quiser vá, eu é que não vou lá / Que forró na cidade não tem nada pra me dá. Eu já tava protestando com as coisas da cidade. Mas essa eu nunca gravei. O primeiro sucesso mesmo foi Bota fogo na fogueira / Santo Antonio mandou / São Pedro disse João foi dormir e ainda não acordou. Essa já foi sucesso. Estourou mesmo. Foi quando eu comecei a aparecer já com minhas coisas. Eu sempre gostei de Gonzaga e de outros, mas nunca gostei de imitar. Eu não pensava em ser igual a eles. Eu fazia uma coisa pra mim. Que fosse minha. Até quando pediam pra cantar os sucessos do momento, eu dizia não, eu vou cantar as minhas.

Destino
Eu mesmo já cantando nas farras, nos forrós, nas latadas, não pensava em ser cantor. Mas também não procurava outro serviço, não. Meu pai é que queria que eu fosse médico. Fui pra Recife estudar, mas não gostei. Um dia eu tava na Avenida Conde da Boa Vista, um carro de Serra Talhada passou, eu “moceguei” e vim embora. Aquilo não era pra mim, não, embora eu ache que eu seria um bom médico. Eu gosto dessas coisas. Sobre remédio mesmo eu sei um bocado. Sou eu mesmo que me receito e até indico remédios pra outras pessoas.

Primeiro disco
Quando eu cheguei em Serra, de surpresa, papai se lamentou e tal, aí disse: pelo jeito você quer é cantar, né?. Eu disse: é. Ele disse: então faça alguma coisa que você apareça. Quando eu tava com uns 21 anos, juntei três primos e gravei o primeiro disco, um compacto com quatro músicas. Gravei em Recife, na gravadora Rozenblit, que era uma das maiores do Brasil. O disco era pago, mas mesmo assim tinha que fazer um teste. Quem me julgou foram Nelson Ferreira e Capiba. Fui aprovado e tavam lá as músicas Bota fogo na fogueira, Forró na pistola, Chorar por alguém não é defeito e outra. Ave Maria, sucesso demais.

O estouro
Agora o estouro mesmo pra valer foi com Peixe piaba. O nome da música mesmo é O forró está presente, mas todo mundo só chamava Peixe piaba. Aí já foi um LP e peixe piaba virou nome de casa comercial, de roupa, de calçado. Foi um protesto, no tempo em que o pessoal do interior e da zona rural tava muito envolvido com a música da jovem guarda. Aí eu comparei o estilo deles com uma piaba, que na terra não nada, que tava fora de seu habitat. Que aqui quem tinha que aparecer era o forró mesmo.

Disco de ouro
Depois veio Pau nas coisas, que foi um sucesso no Brasil todo. Vendi 300 mil discos só no lançamento. Rodei pelo Fantástico, Chacrinha, Bolinha, Sílvio Santos. Todo mundo perguntava como um cantor estoura uma música daquele jeito morando no interior do Nordeste. Ganhei quatro discos de ouro, outros de platina. Foi o auge mesmo. E nunca quis sair de Serra. Me chamavam pra morar no sul, me ofereciam as coisas, eu dizia: vocês tem preá aqui? Tem mocó pra eu comer com nata? Tem não. Então deixe eu no meu canto que é de lá que eu gosto.

Padrão
Do jeito que eu comecei eu continuo. Canto em circo, em salão, em palhoça, em festa grande. Sempre cantei no São João em Caruaru e Campina Grande. O São João de Campina Grande foi eu que abri e me mantenho lá até hoje. São 36 anos seguidos. Caruaru, não. Apesar de ser pernambucano, mas não me chamam todo ano, não.

Intérpretes
Muita gente grava música minha e nunca fiz questão. As músicas são sempre minhas, mas as vezes um intérprete pedia pra botar o nome pra ganhar direito autoral também, eu deixava. Mas só quando a música era inédita. Depois de gravada, não. Um dos primeiros foi o Trio Nordestino. Vieram fazer um show aqui em Serra e eu fui no hotel conhecê-los. Perguntaram se eu não conhecia quem tinha uma música que falasse em peso. Eu disse: eu tenho uma pronta. Cantei: Toda festa de embalo / Eu quero ver forró / Eu vou dançar forró / Eu vou me balançar... e o refrão: Forró pesado, forró pesado / A moçada se assanha / E ninguém quer ficar parado. Levaram a música na hora e depois pediram outras.

Produção em série
Até agora, enquanto a gente tiver fazendo essa matéria, eu tenho 734 músicas. Tem DVD e 49 discos. Mas amanhã eu não sei, posso fazer uma música a qualquer hora. Eu não faço o improviso dos poetas, mas música eu faço na hora. A maioria dos discos eu entrava na gravadora sem o repertório tá pronto. Aí diziam: faltam uma, faltam duas. Eu fazia. Do mesmo jeito é nos shows. Uma vez em São Paulo me botaram num baile country. Aí perguntaram: o que é que tu vai fazer pra esse povo? Eu disse: se incomode não. Entrei, daqui a pouco disse: puxa uma marcha aí. Quando os meninos puxaram eu entrei com Bob Nelson, pulando, jogando as pernas pro lado e dando aqueles gritos. Pronto, ganhei o povo e a festa foi uma beleza.

Sanfoneiro de boca
Eu tentei tocar oito baixos, mas parei logo. Não sei música, mas conheço de ouvido se o cabra tocar errado. Dominguinhos disse que eu era o melhor sanfoneiro de boca que existe. Porque eu faço as músicas de cabeça também, as introduções. Faço o arranjo na boca e o músico encontra no instrumento do jeito que eu digo. Eu fiz assim com Peixe piaba pra Dominguinhos, ele foi tocar, errou. Eu corrigi ele. Disse: não é assim, não. Tá errado. Cantarolei de novo, ele pegou aí tocou certo. Eu disse: tá vendo a diferença? Aí ele riu e saiu com essa que era um sanfoneiro de boca.

Forró elétrico
Eu achava pouco só a zabumba, o triângulo e a sanfona. Achava muito vazio. Aí botei a bateria eletrônica, que foi o que chamou atenção, botei cuíca, guitarra, contra-baixo. Ficou dum jeito que quando eu ia gravar no Recife, tinha gente que ia só pra ver qual era a novidade que eu ia levar. Fui criticado por isso, diziam que eu tava descaracterizando o forró, mas os jovens tavam comigo. Uma vez eu cheguei num restaurante no Crato e Luiz Gonzaga tava lá. Me chamou e perguntou: o que é aquilo que tem no seu disco que parece um cachorrinho latindo? Eu disse: é uma bateria eletrônica. Ele disse: rapaz, bote uma zabumba. Eu disse: não, deixa assim mesmo. Eu nunca toquei com zabumba, sempre foi com bateria.

São João
Tocar no São João foi ficando difícil. Vieram as bandas que, inclusive muitas me seguiram, mas a coisa misturou demais, a música não é mais só forró. Daqui a pouco a gente vai tá vendo no São João do Nordeste Lady Gaga, Madonna. O problema é que as cidades, os políticos, estão disputando público. Querem ver gente na praça e o forró autêntico não tá lotando praça mais. Infelizmente, não. Eu ainda junto gente porque tem muita gente que começou gostar de mim quando era jovem, quando era menino, e me acompanha até hoje. Tenho meu espaço.

Comunista...
Cheguei a ser detido, mas foi ligeiro. Foi com a música Ponto de vista. A música diz: Queima a paia, paia da cana / Toque a guitarra, toque a sanfona / More na ponte ou num lindo palácio / Durma na cama ou na esteira / Mas que mate o cansaço / Tira toda essa máscara / Mostra tudo quem tu és / Diga a todas essas abelhas / Que o povo é quem faz o mel... aí não gostaram. A outra era: Minha manteiga dá pra todo pão / Mostra a bandeira do povo guerreiro / Pegue um bom dinheiro / Faça tudo na vida, tudo que for capaz / Só não faça maldade, somos todos iguais / Filhos da mesma massa, filhos de um só pai. Me tacharam de comunista. Eu tava na gravadora, a Polícia Federal chegou, me chamou, o agente disse: sente aí, você tá detido. Você é um novo Vandré que tá surgindo. Eu fiz que num tava entendendo, aí Pedro Sertanejo, pai de Osvaldinho, disse: hôme, isso num sabe o que é isso, não. Isso é lá do sertão de Pernambuco, daquelas terras de Lampião, num sabe de nada, não. Aí outro agente disse: é, deixa o rapaz, vamo embora (risos)... Daquela vez eu fui salvo pelo cangaço.

...não militante
Eu nunca fui de me envolver em movimento nem partido, não. Vez por outra é que eu colocava umas coisas na música, porque achava que tinha que dá o recado também, mas só isso. A censura me perseguiu mais pelas músicas de duplo sentido. Esquenta Moreninha foi um caso, por comparação com uma relação sexual. Só passou porque o dono da gravadora gostou muito, viu que ia estourar, deu um jeito lá e liberaram. Mas o meu duplo sentido é aproveitando as coisas que a própria língua portuguesa permite. Por exemplo, jequi é uma armadilha de pegar peixe. Minhoca é a isca. Quando eu botei na música que eu ia pescar com uma menina e colocar a minhoca no jequi dela, aí já caíram em cima. Mas é o próprio português que permite isso.

Absurdo
Outra coisa diferente foi eu ganhar o troféu Compositor do Absurdo. Isso foi lá em Olinda por causa da música Chuva miúda. É onde eu digo: Nessa vida de vaqueiro, todo mundo é carnaval... e mais na frente: Caju novo é maturí, o mar anda sem correnteza / Da mulher quero a beleza, flor de banana é mangará... Aí ganhei esse troféu, mas vida de vaqueiro, todo mundo é carnaval é essa correria do dia a dia, todo mundo feito um formigueiro.

Dois doidos
Agora Domá (Anildomá, pesquisador do cangaço) pediu pra eu fazer uma música sobre Lampião. Eu disse: eu faço, mas é falando de Zé Saturnino também, que era meu tio. Aí fiz Dois doidos de pedra, que diz: Zé Saturnino da pedreira e Virgolino / Desde menino começaram a brincadeira / Eles brincavam de brigar o dia inteiro / De pedra, de funda, de badoque e baleeira / Mas o destino só queria ter um pé / Desculpou-se do chocalho e começou logo o trupé / E a cobra fumou e o xaxado no pé / A poeira subindo e o xaxado no pé / Era a bala cortando e o xaxado no pé... Aí deu certo.

Daqui pra frente
Eu nunca fui de pensar no futuro, não. Deixo as coisas acontecerem, nunca liguei pra nada. Já cheguei em casa muitas vez com a mala do carro cheia de dinheiro, mandava o povo pegar, comprar feira. Daqui a pouco chegava um e dizia: se acabou. Eu dizia: se acabou? Então pronto, depois ganha mais. Sempre fui assim. Graças a Deus nunca me apeguei a nada e também nunca me faltou. E é esse o conselho que eu dou pra quem quiser ouvir: faça tudo com honestidade, mas tudo com força, com garra, porque acreditando tudo dá certo.

Leia a Revista Pajeuzeiro na íntegra: https://goo.gl/e7fCYq