O Papa da Poesia

Texto Alexandre Morais | Fotos Claudio Gomes


Imagine uma igreja onde o deus é a poesia. O mal a ser combatido é a saudade; a bíblia é a viola e o terço é debulhado em cantoria. A sede é São José do Egito e todos os dias tem missa, cada qual em honra a santos e santas poetas.

Nem imagine mais. Essa igreja já foi concebida pela genesialidade de Vinicius Gregório, poeta abdicado, devoto praticante das sagradas escrituras e oratórias poéticas. É a Igreja Protestante do Reino da Poesia.

E pra mostrar que sabia o que tava fazendo, o bom escriba não economizou na tinta na hora de apontar o sumo pontífice de tal ordem: “Escolho o papa melhor / Mais sincero e verdadeiro / O de poemas singelos / Com o dom de serem os mais belos / O papa é Dedé Monteiro.”

Apois tu acha que depois de uma argumentação dessa e da imediata e unânime aclamação pelos seguidores do reino, Dedé ainda se faz de rogado. Diz que prefere ser chamado como o homem do fim da feira ou da porca preta pelada, fazendo alusão a dois de seus mais conhecidos poemas. Modéstia de gente grande.

O título caiu bem que só mitra em cabeça de papa. Gostou? Mitra é aquele chapéu comprido que o papa usa. Caiu bem porque Dedé também é um religioso ativo. Além de todos os comuns sacramentos, ele foi coroinha e sacristão emprestado. Essa é nova, não é não! O Padre Luiz Muniz, egipciense sacerdote em Tabira no final da década de 60, convocou Dedé pra substituir um sacristão que houvera viajado. “Apesar de não saber distinguir o que era repique nem sinal, ainda fiquei quase um ano na função”, lembra sorrindo o hoje papa.



A rejeição ao título não é específica. Dedé sempre achou que deveria estar nos degraus debaixo, na massa. Massa sedimento e massa povo. Muitos foram os convites para cargos, postos, funções, disputas e muitos foram os “não, obrigado”. Diz que pela formação recebida sempre acreditou que as coisas podem ser corretas, mas sempre se deparou com visões e ações desviadas. E revela que lamenta não ter se proposto a ser um corretor desta realidade.

“Sempre busquei o correto e o bem. E nunca me senti capaz de assumir determinados postos por achar que era impossível corrigir ou superar muito do que a gente sabe e vê. No fundo, me sinto culpado por não ter enfrentado isto no tempo certo. Mas quando senti isto, vi que já era tarde, não era mais tempo pra mim.”

Assim o militante político-social também vive no poeta. Trabalhos como ‘Assassina, Brasil, teus inocentes / Que depois tu terás por quem chorar’, ‘Nós somos tijolos vivos / Na construção do país’ e ‘Soneto de revolta’ expressam esse Dedé ativista.

Outra revelação é que gostaria de ter sido advogado. E não o foi pela mesma indisposição de conviver com o contrassenso. “Eu, estudante, vendo as atuações inspiradas de Zé Rabelo, senti vontade de segui-lo. Mas depois, vendo muitas outras atuações, essas sem inspiração, só impulsionadas por dinheiro ou outros interesses, acabei desmotivado.”

A grande motivação de Dedé, na verdade, foi contemplar, apaziguar, reunir. Como um bom enviado, sempre dispôs um ombro e uma palavra amiga, acreditando nas pessoas e nas famílias. Divide-se e reúne-se ao mesmo tempo em três amores: “à família original, à família gerada e a Deus sobre todas as coisas.”

Da família original é que veio o gosto pela poesia. Recorda que o pai sempre incluía cordéis nas feiras que fazia. Em casa a mãe os lia e na roça, em tarefas maneiras, recitava e cantava versos com os irmãos. Uma vez letrado conheceu os poemas de Castro Alves, Drummond e outros clássicos, mas se encontrou mesmo com os cordelistas e cantadores de viola.

“Eu voltava da banca de feira de meu pai e parava no Beco de Pergentino pra assistir as cantorias. Lembro de Miguel Espinhara, Zé Feitosa, Lavandeira do Norte... eu ficava ali, menino, impressionado com aqueles poetas.”

Dali pra começar a escrever foi um pulo. A boa memória não lhe distancia dos incentivos e incentivadores. “Não tenho o poema, mas lembro que o primeiro foi na escola, para minha mãe, a pedido da professora Enaide Vidal. Fim de feira foi uma dica de Ducarmo Viana, também professora. A tampa do tabaqueiro foi sugestão de Cicinho Gomes e o primeiro livro, Retalhos do Pajeú, em 1984, foi incentivado por Zelito Nunes.”

Dada esta largada, o poeta não parou mais. Faz de um tudo ligado à poesia: recita, julga, apresenta, corrige, prefacia, aconselha e escreve. E como escreve. Ora por inspiração, ora por encomenda. Fazendo e sentindo-se bem. “Eu me sinto muito bem quando escrevo algo que gosto e que sinto que algumas pessoas também vão gostar. Fiz poesias para arrancar risos, mas provocando reflexões, sentimentos. E também termino poemas chorando.”

Muitos destes risos e prantos foram registrados em seus outros livros Mais um baú de retalhos (1995), Fim de feira (2006) e Meu quarto baú de rimas (2011) e no CD Dedé Monteiro em voz e amigos: 50 anos de poesia (2014). Junto às publicações, claro, vieram as críticas. Sim, nem os papas estão livres delas. A mais recorrente, a de ser um poeta bairrista. De só abordar o que lhe rodeia. Diplomaticamente responde que vai morrer assim. “Quem se concentra em sua aldeia cuida do planeta. Nunca fui de voar, não. Gosto é do meu canto mesmo.”

E seu canto é Tabira. É o Pajeú. É o sertão. Lugar onde nasceu e se fez mito em tudo que fez. Muito mais que poeta, como homem, como trabalhador, como desportista, como professor. Como homem em tudo. Como trabalhador desde cedo junto à família na roça, nas feiras, no comércio e já sozinho em escritório das frentes de emergência. Como desportista, jogando futebol e vôlei – “embora muito ruim” – e atuando como assistente técnico e preparador físico. Como professor de contabilidade, inclusive de sua esposa Teté, de educação física a convite da então diretora do Ginásio Eduardo Coelho, hoje Escola Arnaldo Alves, professora Dulce Lima, e como técnico deca-campeão dos jogos escolares regionais.

E o saudoso Dedé se derramou como nunca. Apesar de toda carga sentimental do poeta, foram as lembranças como técnico do Arnaldo Alves que molharam de lágrimas essa reportagem.

“Foram momentos carregados de dificuldades. Chegávamos em Tabira muitas vezes meia noite ou mais e íamos comemorar pelas ruas. O povo entendia aquilo”, relembra. “Eu nunca fui de festejar e até era criticado por isso, enquanto Rosa e Teté às vezes até brigavam,” chora. “Eu ficava naquela de abraçar os meninos e pedir pra eles abraçarem os adversários, confortar os derrotados. E na derrota também, porque não se deve dar as costas aos que lhe venceram”, reensina. “Eu não tinha me lembrado ainda desse tipo de saudade”, soluça. “O que mais me deixa bem comigo mesmo é levar a sério o trabalho e não querer conquistar os prêmios de qualquer jeito.” Pede pra parar. Pedido aceito.

Leia a Revista Pajeuzeiro na íntegra: https://goo.gl/e7fCYq