Produção de vida no Sertão

Texto Wivianne Fonseca | Foto Claudio Gomes

Pajeuzeiros busca falar da diversidade de Artes e das Artes diversas que possuem em comum ser linguagem do Pajeú. Que cultura popular é essa que nos identifica? Dança, pintura, cordel, poesia, bordado, artesanato... artesanato em couro, que tal?! Nessa “categoria de arte” a gente tem no Pajeú uma figura ímpar para conhecer: Reinaldo Ferreira de Lino ou, simplesmente, seu Reinaldo.

Vamos para Riacho Verde, localidade da área rural do município de Itapetim, pouco depois do Distrito de São Vicente. Trajeto conhecido nosso: estrada de chão, mandacarus e algarobas, “porteiras-cancela” e cachorros acuando os carros que passam. Chegamos a casa simples, de porta meiada (aquelas de madeira, divididas em duas partes, com trinco em cada uma), de tijolos aparentes, não aqueles de fábrica, de fazenda ou de chácara usada só em fim de semana, mas de parede que não foi rebocada, que deixa à mostra o cimento antigo do qual é feita, cimento que entre os tijolos, numa paráfrase a Baccarin, são veias gastas, mas sempre com sangue novo a correr.

A casa é cercada de pés de milho que breve estarão embonecados. “bora espiá meu roçado”, chama o nosso personagem. Do alto dos seus 95 anos, – “96 eu vou fazer em 26 de outubro, se num morrer daqui pra lá!”- seu Reinaldo trabalha numa pequena oficina que construiu ao lado da casa onde mora. “A casa, a oficina... tudo isso aqui era eu mermo que fazia, não pagava nada a ninguém. Sou pedreiro também. Só pelos metro, eu sei até quanto leva de materiá”.



Com passo firme, seu Reinaldo vai andando pelo terreiro, nos guiando até sua oficina. Com mãos seguras, vai gesticulando, argumentando que trabalha desde cedo e que se orgulha disso. “Comecei a trabalhar no roçado com 13 anos. Toda vida trabalhei e nunca tive preguiça de trabalhar. Trabalhar num mata ninguém não”. Já trabalhou em Patos, em Sergipe. “Bati o mundo todim”. Nosso artesão não usa óculos e diz que só toma remédio uma vez no mês por causa da gastrite. “Eu como que só um animá”.

Viúvo, sem filhos, assistido por uma afilhada que “vem barrer a casa”, seu Reinaldo afirma que a esposa paraibana (era natural de Monteiro), morreu louca. Com esse assunto, traz à tona sua religiosidade. “Deus dê um bom lugar a ela, rezo pra ela todo dia”. E também seu bom humor. “Era uma boa mulher, dona de casa, mas, sinceramente, só vim ter sossego na vida depois que ela morreu”.

O trabalho com couro entrou em sua vida há 40 anos e não tem perspectiva de saída. “Eu vou trabalhar enquanto tiver vivo e puder trabalhar, pode ser eu caducando que eu me astrevo a trabalhar”. Analfabeto, seu Reinaldo afirma que o olhar do artista está além do domínio convencional das letras. “Eu num assino nem o nome, mas pendeu pra arte, eu sou todo por dentro! Nasci com sonho de trabalhar em arte. Desde esse tamanhinho, eu já fazia carro de boi com caco de cuia”, disse marcando com a mão uma altura de não mais que 80 cm. Hoje, as peças produzidas no seu trabalho com couro são chinelos e bolas de futebol, mas já trabalhou muito com acessórios para vaqueiros. “Já fiz arreio, rabixola, freio... foi de couro, essas coisas assim grôssera, eu faço tudo”.

Seu Reinaldo compra o material entre Monteiro e Tabira e, sozinho, realiza todas as etapas comuns na produção de arte com couro: deixa o couro de molho por um tempo, depois o glosa, limpando “aquela baba que fica por dentro”. Após secar ao sol, o couro é cortado e, com costura, prego ou cola, ele monta o que quiser. “Eu num peço modelo a ninguém, eu sonho na cabeça, faço com o compasso e depois corto”, diz ele mostrando um grande compasso de ferro, a faca para corte do couro e a tábua de madeira que apoia o uso dessas ferramentas. “Tem peça que dispensa a costura como as corrêa trançada das chinela pra mulher. As bola também, eu só encho depois que seca bem no sol”.

A confecção das bolas chama a atenção. Depois de riscados caprichosamente no couro, os gomos de cada uma são cortados e costurados totalmente à mão, evocando lembranças e o respaldo do artista para confeccioná-las. “Já joguei muita bola! Fui artilheiro. Era chamado pra jogar em Brejinho, pelo mato, por todo canto! Já fui convocado até pra jogar no Treze, em Campina Grande!”.
A venda de seus artigos acontece nas feiras livres. “Vendo pelas feira e faço de encomenda. Vou pra feira de Santa Cruz, mas minha feira mesmo é a de Itapetim. No sábado, eu tô em São José do Egito, vou pra Tabira também... mexo o mundo todinho!”. Nesse ponto, seu Reinaldo entrelaça sua trajetória ao processo de industrialização que fez o couro ir sumindo da lista de matérias-primas mais usadas, dando lugar ao plástico e a outros materiais sintéticos. “Depois do plástico caiu muito o trabalho com sola. Tem muito artista pelo mundo, nessa outra arte japonesa”, disse numa referência aos chinelos de borracha populares atualmente.

Mas nesse eterno embate, entre modernidade e tradição, seu Reinaldo, artesão original e tradicionalmente sertanejo, segue tranquilo. Ele não duvida que a relação com as pessoas, construída a partir da produção e da venda de seus artigos de couro, é uma forma de reconhecer as próprias raízes e de seguir adiante: “Meu negócio é fazer amizade. Nunca teimei mais ninguém, nunca briguei. Eu gosto de viver aqui. Aqui é meu lugar e quero morrer aqui”.

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