Sigo o caminho das artes

Texto William Tenório | Fotos Thiago Caldas


Segunda-feira. No centro da cidade as pessoas passam apressadas. Em uma casa localizada na Praça Monsenhor Alfredo de Arruda Câmara, ao lado da agência do Banco do Brasil, Edierck José dedica seu tempo ao violão, hábito que ele define como vício. “É uma dependência mesmo, até emocional, eu entro num estado de felicidade”.

A casa-ateliê é fantástica, um local que frequento desde menino. Nela se confundem móveis com peças de arte produzidas pelo próprio artista ou acumuladas no decorrer da vida. Logo na entrada seus quadros estão à mostra. É nela que o artista passa algumas horas praticando violão e foi nela que o encontrei para esta conversa. Edierck é uma figura. Magro, alto, com olhos arredondados e sempre receptivo aos que visitam sua casa. “Talvez eu tenha herdado isso do meu avô”, lembra. Ele me convidou para entrar e, para fugirmos do barulho da rua, fomos para a sala.



Na sala, escolhi sentar na poltrona em frente ao sofá de três lugares, no qual Edierck sentou-se no meio, com as pernas cruzadas no estilo yoga. Começamos uma conversa que informalmente já havíamos iniciado há semanas. Filho único, nascido em 1959, morou na casa de seu avô materno em Carnaíba, avô que era uma espécie de faz tudo da cidade - de dentista a ourives - e foi uma das primeiras influências de Edierck junto com sua mãe, dona Euza, costureira, que se mudou com o filho para Afogados da Ingazeira quando o garoto tinha catorze anos: “porque aqui tinha uma escola de música. Seu Dino dava aulas, e mãe: você quer estudar música?”.

Em Afogados, Edierck comercializa seus primeiros trabalhos. “Eu fiz caqueras, vasos de plantas feitos de corda, era moda na época”. A técnica é conhecida como macramê. “Ali saquei que eu podia ganhar minha grana... foi muito importante”. A partir deste momento passa a desenvolver outros trabalhos manuais e perceber que era possível viver de arte. Mesmo assim, aos 19 anos prestou concurso público e foi trabalhar na saúde, no Hospital Regional, mas começou a ficar infeliz com a vida e acabou largando o emprego. “Vou ser o dono do meu trabalho, do meu destino, da minha hora, trabalhar criativamente, estar sempre criando”, decidiu.

Nessa mesma época, ele entra para faculdade. “Achei que devia ter um curso superior. Eu nunca fui um bom aluno, mas saquei que era importante”. O sonho era fazer um curso de artes, mas a distância não permitiu. Edierck é bacharel em História pela faculdade de Arcoverde, profissão que nunca exerceu.

Apesar de residente em Afogados, viajava muito à Carnaíba: “lá era muito mais psicodélico”, Afogados era mais conservadora, “e eu já era um adolescente hippie do movimento, era um cara paz e amor”. Segundo relatos, chamava bastante atenção pela forma de vestir-se e pelo modo de agir, totalmente fora dos padrões da época, principalmente de uma cidade de interior.

Em 1981, com 22 anos veio o casamento, como ele mesmo afirma: “com uma amiga de infância. Eu tenho fotos de Olegária em meu aniversário de 12 anos”. Neste mesmo ano nasce Edinho, primeiro filho do casal, de parto natural feito em casa por uma parteira muito especial, dona Euza, mãe de Edierck e avó do garoto que ajudava a trazer ao mundo, influência da cultura hippie. “Resolvemos ter em casa e foi uma experiência e tanto, eu era um cara de 22 anos e ajudei... eu, minha mãe e Olegaria tivemos esse menino em casa”. Além de Edinho, o casal ainda teve mais três filhos, Edimarck, Mayra e Erck.

Agora casado, com filho e decidido a viver da arte, foi trabalhar com macramê: “fiz máscaras, aí foi quando chegou a pintura, e eu abri um espaço, uma loja de artesanato”. A ideia era conciliar trabalhos autorais com os de outros artistas. O comércio começou a crescer: “deixei de fazer e passei só a ser comerciante, vendia a arte dos outros”. Nesse momento, Edierck para, me olha, se ajeita no sofá e diz: “eu não queria isso não, saí de uma coisa e quero outra, aí fechei a loja”. Ficou somente o ateliê e, a partir daí, ele passa a se dedicar unicamente a seus trabalhos. “Eu fui exercitando a ideia de retratar as pessoas, os temas locais... aí foi um pulo”.

E ele não parou mais, autodidata como ele mesmo faz questão de ressaltar, seus trabalhos, nesse primeiro momento, tem como tema o seu lugar e suas memórias. “Eu sempre busquei o homem, a natureza... minha primeira tela foi um senhor que vendia casca de pau, tá aqui até hoje”, diz, apontando para o quadro em cima da estante da sala que retrata um senhor de idade, pele morena e enrugada, vestindo uma camisa verde e abraçando um saco aberto cheio de cascas de pau.

“Minha escola estava aqui na minha frente... a arquitetura, as casas que sempre me chamaram a atenção”. Nesse momento sou eu quem interrompe: vejo na tua pintura um Edierck memorialista, um tanto saudosista. Ele prontamente responde: “Conservador! Me disseram uma vez. Eu não contestei. Eu gosto dessa coisa, do passado; uma época eu pintei muito de memória, era mais fácil... as vezes pintava casas que já foram derrubadas há 20 anos, sei lá... teve uma que errei por uma janela, eram 5, eu botei 4, mas repare... 20 anos depois”. (risos)

Junto com isso veio uma perspectiva única: “as pessoas tentavam me enquadrar em uma perspectiva fotográfica e eu não me enquadrava, porque eu terminava distorcendo alguma coisa, uma rua, uma esquina...”, e com auxílio das mãos ele explica, “eu gosto da forma, do jeito... quando vou buscar o homem, vou buscar a expressão corporal dele, o movimento”. E essa busca não se resume às telas. Seu trabalho com esculturas tem seguido o mesmo caminho, o movimento. Ele se faz presente em A noiva, escultura realizada em um tronco de madeira na praça da cidade de Afogados. Nela, a moça parece caminhar. Talvez a exceção seja seu trabalho em painel, como ele mesmo define, pois a técnica que utiliza cimento aplicado em parede para criar formas em alto-relevo, que por vezes são pintadas, foge à busca do movimento. Quando há personagens, eles são representados parados, como se posassem para uma foto.

Em 1999, com quarenta anos de idade, Edierck recebe um convite inusitado: fazer parte de um projeto da Unesco de pintura em mural que aconteceria inicialmente na Alemanha. “Isso mudou minha vida, eu sai daqui um Edierck e voltei outro”. O convite veio através de Tomas, um alemão que morou um tempo em Afogados da Ingazeira e levou uma tela de Edierck quando retornou à Alemanha. Foi essa tela que serviu como currículo: “passei três meses lá, pintei em muitos lugares públicos”.

Como continuação do projeto em 2000, “conseguimos trazer um mural para Afogados da Ingazeira”. Pintado na fachada da Secretaria Municipal de Educação, e recentemente restaurada, a obra integra o acervo da Unesco no Brasil.

O tempo trouxe a evolução da técnica: “teve uma época que eu desenhava e pintava... me libertei do desenho, usava as mãos e comecei a pintar com os dedos”. Sempre experimentando, sua obra tem ganhado cores mais fortes e um certo contraste que ele afirma ser reflexo da fotografia. “Hoje eu tô juntando experiências atrás com a questão da luz e da sombra de forma muito mais consciente, porque minha última busca tem sido a luz e a sombra.” De fato, luz e sombra tem ganho grande destaque nos seus últimos trabalhos, assim como a temática tem mudado.

Eu provoco perguntando: Sua obra está ganhando uma temática “moderna”? E ele responde: “Agora o que me chamou a atenção foi esse momento, essa postura, a self” – se referindo ao quadro em que uma menina faz uma self com um celular, na qual ele faz um paralelo com o mito de Narciso – “eu pintei porque eu comecei a não querer ficar preso a uma tradição... pra não ser só o tradicional, o homem sertanejo, o vaqueiro...”.

A mudança é notória, há pelo menos mais uma tela, além da self da menina, em que o fundo é composto por quadriláteros coloridos. Brinco, perguntando se existe uma influência cubista. Edierck sorri e responde: “não é cubismo. É colcha de retalhos, porque é todo recortado, é como uma colcha de retalhos mesmo”.

Hoje, maduro, Edierck vive outro momento. Os filhos estão seguindo seus próprios caminhos, os netos estão chegando, “todo mundo alerta para essa fase da vida, mas é uma fase que você pode usufruir e exercer outras coisas”. Questiono sobre o esvaziamento da casa, ele responde: “agora você tá livre para voar, para dar asas à imaginação”.