Um mestre chamado Dezinho

Texto Bruna Tavares | Foto Claudio Gomes



Era uma manhã agradável de sexta-feira, saímos pouco antes das 8 horas, tendo Cida como guia, educadora social do Grupo Mulher Maravilha e integrante do Grupo de Coco do Travessão Caroá. No caminho conversamos sobre a história da comunidade e as belezas da zona rural que liga Afogados da Ingazeira à Carnaíba, nosso destino.

Não demorou muito e lá estávamos, na Comunidade Quilombola do Travessão Caroá, lado carnaibano da vegetação da caatinga. Em frente à casa um terreiro de cimento batido já denunciava: ali é um lugar de encontros. Seu Dezinho nos esperava à porta, de pé.

Nascido José Alfredo da Silva, seu Dezinho é uma liderança na comunidade que abriga mais de 180 famílias. Cresceu entre o Moxotó e o Pajeú. “Minha vida todinha foi aqui dentro dessas Serras. Primeiro, não tinha casa nenhuma, era só mato, resto de palha né, nos anos 60.” Viveu as dificuldades da estiagem na região. “Vivia do caroá e da vassoura, arrancava o caroá, desfibrava ele e levava pra cidade que hoje se chama Iguaraci”.



Ainda jovem fez seu primeiro pífano para ajudar no sustento da família, composta por onze irmãos. “Comprei um material, um pedaço de cano, fiz um pífano e ficava no departamento de polícia, tocando pros presos e quando eu vinha de lá, já trazia o feijão e a farinha garantido né. Isso era todo dia”. Na busca por um lugar melhor nos tempos de necessidade, seguiu para Floresta, onde viveu por 19 anos, até casar e voltar para Carnaíba.

Quando perguntado sobre como aprendeu a tocar o pífano, ele responde sincero, lembrando dos seus antepassados, tios tocadores e do respeito que existia nas festas. “Antigamente tinha moral, porque se chegasse numa festa e eles estavam tocando não podia passar no meio, tinha que sentar no pé da parede e ficar só assistindo.” E assim, na observação, ele foi acompanhando o grupo de pífanos da família e aprendendo as lições de vida e da cultura regional. Especialmente o tio Zé, que pouco antes de morrer lhe deixou a banda de herança “para tomar de conta”. Hoje a banda já tem 45 anos, entre irmãos, fazendo shows em todo Brasil e com dois CDs gravados.

Seu Dezinho é tocador de pífano, sanfona, violão, prato, pandeiro, triângulo, flauta e está tentando aprender clarinete, estudando em casa, vendo e ouvindo outros tocadores. Porém, mantém as atividades da banda de pífanos, reestabelecendo os contatos com as cidades e comunidades por onde passou nos sertões do Moxotó, Itaparica e Pajeú. Sobre a banda de pífanos, ele ressalta a renovação do grupo. “Hoje de idoso na banda de pífano só tem eu, agora né. Dos mais velhos. Hoje é tudo da escola de música. Tudo menino aprendido aqui. Menino bem inteligente faz um serviço diferente dos mais velhos que tinha aqui. É tudo diferente o trabalho deles hoje, até porque estudaram muita teoria comigo aqui”, conta orgulhoso.

Durante anos seu Dezinho manteve uma escola de música na zona rural de Carnaíba que atendeu a muitos jovens. Na sua casa, ele reservou uma sala para ensinar os mais jovens sobre o pífano e outros instrumentos musicais. Quando perguntado se eles também aprenderam a fazer o pífano, a resposta foi sem jeito. “Estamos tentando, mas o pífano é muito difícil se você não tiver paciência pra fazer ele. Ele exige tanta matemática, que dá até enjoo. Se você não tiver uma boa cabeça pra fazer um trem desse, é muito difícil.”

Porém, a escola parou de receber o apoio público, como ponto de cultura e da prefeitura. Os gastos se acumularam e seu Dezinho teve que fechar a escola. “As crianças choraram quando a escolinha fechou. Ainda hoje tem menino que aparece e eu paro pra ensinar uma besteirinha.” O material da escola continua lá, guardado no canto, sobrevivendo ao tempo e satisfazendo os momentos de saudade dos alunos e de seu Dezinho. Ele mantém o sentimento de esperança ao contar que as escolas regulares na comunidade também estão sendo fechadas e só resta a turma dele, no EJA, à noite. “Sempre aquela questão, nunca falta tempo para você aprender as coisas, né. Basta você querer, ter a boa vontade de ajudar você próprio, né.”

Das outras atividades na comunidade, seu Dezinho destaca o Grupo de Coco, herança dos antepassados. “Os nossos antepassados todos eles eram cantador de coco e tocador de pífano. Eu canto o coco! Sambo o coco!” brinca ao lembrar das festas de junho, nos anos 1960, em que a família se reunia na Ribeira (Moxotó) para festejar sambando o coco e conclui que “essa dança, ela é mais brincada pelos negros né. E aqui escondia muita gente”, fortalecendo a tradição da cultura afro-brasileira na região.

Dos ensinamentos daquela manhã, a maior certeza foi de que “tudo vem do idoso né. Nada é novidade, tudo é velhice”, como ele mesmo diz, suas histórias e lições contagiam e mantém viva a tradição cultural entre as novas gerações, a começar pelos filhos e netos, tocadores de pífano, sambadores de coco e orgulhosos do Mestre Dezinho.

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