Moldando vidas

Texto Wivianne Fonseca | Foto Claudio Gomes

Passando no Sítio Tamboril, já na entrada da cidade de Brejinho, é possível observar, ao lado da BR 110, uma casa com janelas abertas expondo panelas, objetos de decoração, canecas e cumbucas feitas de barro. É uma Casa de Arte, ou como suas “donas-artesãs” a chamam, “uma casinha” de produção artesanal com barro.

Chegando mais perto, cumprimentamos as quatro mulheres trabalhando, sentadas à porta, lixam grandes panelas com pedras molhadas em óleo vegetal. A casa é pequena. São apenas três cômodos que abrigam as peças prontas para a venda e aquelas ainda em suas diversas fases de fabricação: algumas secando cobertas com pano, outras aguardando a lixa ou a hora de ir ao forno. Há ainda uma grande mesa, destinada à modelagem das peças e, em um espaço aberto lateral (que seria o quintal), está o forno à lenha, último destino do que é moldado.

A casa, cedida pela senhora Alexandrina Lopes de Araújo, é a sede do Mulheres Art’s Barro. O grupo é formado por oito mulheres que há oito anos trabalham de segunda à sexta, alternando horários entre a manhã e a tarde. Seis delas conversam conosco: Aline Iolanda (25 anos), Jucileide Gomes (49), Jucineide Lopes (56), Maria Aparecida Gomes (44), Maria do Desterro Lopes (40) e Maria Madalena Lopes (48).



Segundo as artesãs, o trabalho com mulheres na produção de peças com barro surgiu no município diante da necessidade de ativar a Associação de Moradores, na época, demanda destinada à Secretaria de Assistência Social. A partir de peças vistas no Pico do Jabre, na Paraíba, uma artesã da cidade de Matureia, veio dar um curso que durou três meses. “O curso era destinado a mulheres da associação de moradores. Iniciou com 16 mulheres, mas umas aprenderam e não vieram mais. Outras aprenderam, mas não quiseram entrar no grupo porque já tinham outro trabalho e outras ficaram vindo, mas depois desistiram. Sei que foi passando o tempo e só ficaram cinco mulheres. Com o passar do tempo, aumentou o grupo de novo”, resume Maria Aparecida sobre a origem do Art’s Barro.

As atividades semanais na casa vão intercalando trabalhos de modelagem e de acabamento. Com todas as mulheres mobilizadas entre esses trabalhos, o grupo já chegou a concluir 50 peças em um dia. “É fundamental que aqui todas saibam fazer tudo”, destaca Aline Iolanda, que há pouco mais de quatro meses trabalhava numa loja da cidade e pediu demissão para atuar no grupo.

A atuação cooperativa exige que todas as mulheres conheçam cada etapa do processo que envolve o trabalho para, na ausência de qualquer uma, o serviço não parar. “A gente vai buscar o barro num sítio a 2km. Depois de seco, o barro é quebrado e passado numa peneira. A gente deixa bem fininho, como se fosse uma fuba, depois junta com uma medida de pedra-sabão, que é também triturada, e deixa essa mistura ficar três dias em sacolas plásticas concentrando pra ficar unido, bem unidinho”, relata Maria Aparecida sobre as etapas do processo de fabricação das peças.

Entre os desafios do trabalho está convencer os familiares de que a arte vale à pena. Desafio maior entre as casadas. “O marido. Sempre o marido. O marido sempre se encaixa perfeitamente nisso, porque eles estão acostumados com a mulher em casa, cuidando, fazendo o prato e entregando a ele. Quando a gente começa a trabalhar, a gente num tem mais tempo pra isso, ai eles começam a estranhar. O meu se convenceu de tanto eu dizer a ele que ia continuar. Hoje ele diz ‘pense que vocês faz coisa bonita. Vocês são inteligente mesmo’”, diz, entre uma risada e outra, Maria Aparecida.

Sobre o significado do trabalho, Jucileide Gomes afirma não conseguir definir em palavras: “É até difícil falar porque significa muito. A gente se identifica, a gente gosta de fazer. Traz de bom a autoestima. Com esse trabalho, a gente se influencia e influencia outras pessoas para a mudança de vida”. Jucineide Lopes completa: “Já participamos de feira no Rio de Janeiro, participamos da Fenearte no Recife. Depois que comecei a trabalhar aqui, fui em canto que eu nem imaginava ir um dia”.

Maria do Desterro ressalta a importância da Assessoria da Casa da Mulher do Nordeste e da Rede de Mulheres Produtoras do Pajeú no fortalecimento do grupo. “O conhecimento que a gente tinha antes era muito pouquinho... a gente não sabia nem o que era o grupo realmente. Nem como conversar, nem como atender o pessoal direito, a gente tinha vergonha de falar. A Casa e a Rede nos ajudaram a aprender sobre esses pontos”. Encerrando, fala sobre a contribuição do trabalho no Art’s Barro para a emancipação das mulheres do grupo. “Antes, ninguém trabalhava, só se fosse na agricultura e em casa de família. Agora a gente tem esse serviço. Se chamar pra outro, a gente responde: ‘já tenho meu trabalho, que é o artesanato, é minhas panelas’. A gente fez uma mudança geral, mudou pra mudar de vida mesmo”.

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