Odília, uma mulher feita de teatro



Ela escolheu o Vale das Juremas para o nosso Papo de Boteco. No Vale, escolheu a sombra de um juazeiro para estender sua esteira. No percurso, apresentou árvores que tem nomes (o juazeiro chama-se Felicidade) e um labirinto de pedras que a faz viajar e se encontrar cada vez que se perde no mesmo lugar. O cenário e os detalhes descobertos e quase vistos só por ela ficam no Sítio Minadouro de Ingazeira, um ambiente antes encarado como servente só para extração vegetal e, à mercê de invernos, para a agricultura e pecuária. Mas desde sempre ela foi assim, diferente. O próprio nome traz uma história curiosa que parece ter definido seu modo de vida. Ela é Odília Nunes, a mulher teatro, ou ‘tearte’ tanto que precisou tear a vida com estilo próprio. De volta para casa, aos 34 anos, se mostra uma mestra. Une experiência à carência do constante aprendizado. E independência à dependência do ambiente natural. E de tudo se faz palhaça, atriz, produtora, figurinista, cordelista... uma viajante em corpo e sonhos. Um só papo com ela é pouco, mas a Revista Pajeuzeiro foi lá pra trazer esse pouco pra cá. Com fotos de Claudio Gomes e entrevista de Alexandre Morais.



Nome
Minha bisavó estava grávida, prestes a dar à luz, e chegou um grupo de ciganos na casa dela. Entre eles tinha uma cigana muito bonita, muito atraente, que chamou a atenção de meu bisavô. Essa cigana chegou pra minha bisavó e disse: “me dá essa menina pra eu criar”. Naquele tempo não se sabia o sexo do bebê com antecedência, minha bisavó ficou assustada com aquilo, mas disse: “não, quem vai cuidar de minha filha sou eu.” E a cigana: “você não vai ter tempo de criá-la.” Incrivelmente, minha bisavó morre daquele parto, nasce uma menina e meu bisavô batiza de Odília, que era o nome da cigana. Mais tarde minha mãe coloca meu nome de Odília em homenagem a minha avó.

Circo
Eu nasci em São José do Egito, mas meus pais moravam em Tuparetama, onde minha mãe era professora. Então me criei em Tuparetama e minha melhor amiga de infância era filha do prefeito. Quando chegava um circo na cidade, ele ganhava ingressos e passava pra gente. Minha amiga ia uma vez ou outra, mas eu ia todas as noites e todas as matinês. Isso eu tinha uns oito anos de idade, mas já fiquei fascinada pelo circo. E o que mais me impressionava era o palhaço. Só que todo mundo prestava atenção nas piadas, nas brincadeiras, e eu ficava observando tudo, as expressões, o modo de vida dos artistas, as reações da plateia. Me encantei de um jeito que, enquanto as colegas diziam “vou ser médica”, “vou ser juíza”, eu dizia “vou ser palhaça.”

Teatro
Quando eu tinha dez anos, Tuparetama começou a realizar um festival de teatro que era um dos mais expressivos de Pernambuco. Foi quando eu fiz minha primeira oficina de teatro, me apaixonei e já comecei a definir que era aquilo que eu queria. Fiquei encantada demais, só que o festival acontecia uma vez por ano e depois não tinha mais nada. Lembro que na biblioteca tinha um livro de Maria Clara Machado, com as peças dela, mas que eu não conseguia ir muito além. Foi quando chegou o Romualdo Freitas, que foi meu primeiro mestre, a gente montou uma peça e, dos 11 aos 14 anos, eu trabalhei com ele. Ele foi embora e dali até os 17 eu tive o meu próprio grupo de teatro. Aí nós participávamos e ganhávamos quase todos os prêmios do festival da cidade.

Estrada...
Com 17 anos eu já tinha uma paixão muito grande pelo teatro. Eu montava o grupo, rasgava roupas pra fazer figurino, fazia cenário, dirigia..., só que era tudo muito trabalhoso e meus amigos estavam todos saindo da cidade em busca das faculdades. Eu não podia ir, mas também já via que Tuparetama não dava mais pra fazer o que eu queria. Foi quando uma tia que morava em Juazeiro da Bahia me chamou pra ir passar as férias na casa dela. Pra me convencer a ficar, ela me inscreveu em um curso de teatro, mas a intenção era que eu fosse trabalhar em qualquer outra coisa. Aí foi uma época interessante.

...a fora
O curso era em Petrolina e lá eu conheci meu grande mestre, que foi o Sebastião Simão. Fiquei na companhia dele por quatro anos, treinando oito horas por dia. Aí vieram dois reencontros: Sebastião montou uma peça da Maria Clara Machado e convidou Romualdo Freitas pra dirigir. Recebi um personagem que só entrava no finzinho, quase imperceptível, mas quando Romualdo viu, mudou logo e me colocou como o antagonista da história. Com aquele papel eu conquistei Sebastião, o espetáculo deu muito certo e eu fui me fortalecendo. Só que, contraditoriamente, minha tia me arrumou um emprego de cobradora de ônibus e eu não quis. Ela me tirou de um cursinho que tinha me matriculado, deixou de me dar o dinheiro da passagem e depois me expulsou de casa porque não aceitava que eu fizesse teatro.

Foco
Quando ainda morava com minha tia, rolou um teste para um filme das produções Globo. Antes de sair o resultado, minha tia foi assistir a uma peça em que eu dava um selinho em outro ator. Ela ficou desesperada, disse que era um absurdo, que eu ia engravidar e que eu tinha que voltar pra Tuparetama. O resultado do teste sai e a produção telefona pra casa dela e avisa que eu tinha sido aprovada. Ela deu o aviso toda empolgada e eu disse que não iria porque tava indo fazer uma pesquisa em Canudos. Ela se desesperou e eu tive que inventar uma justificativa. Disse: “tia, eu não vou porque o papel é de uma prostituta. Vai ter cena de sexo.” Aí ela surpreendeu. Disse: “besteira, o artista que vai tá com você é um global” (risos).

Determinação
Por eu escolher o teatro tive que sair de casa sem ter pra onde ir. De repente, o grupo todo decidiu que tinha que ousar, alugou uma sede, eu fui morar nessa sede, que era um galpão, e depois nós fomos, 13 pessoas, sem dinheiro, morar em Recife. Alugamos uma quitinete, ensaiávamos no Parque 13 de Maio, não conseguimos espaço pra encenar e fomos expulsos da quitinete. Alugamos um sobrado antigo, conseguimos uma pauta num teatro e as coisas começaram a melhorar até que eu levo uma queda na rua e fico sem encenar. O grupo para e a gente chega a não ter nem o que comer. Nós entrávamos nas filas dos moradores de rua pra pegar sopa nas igrejas.

Novos rumos
Na dificuldade, o grupo foi dissolvendo, as pessoas foram procurando seus rumos, suas formas de sobreviver. Só continuamos no teatro eu e Sebastião. Um virou pedreiro, outra militar, outra professora, outro chef de cozinha... Mas na época éramos muito radicais, só aceitávamos as coisas do jeito que a gente queria e não é assim que as coisas funcionam. Um dia, eu resolvi sair também da companhia e, de novo, eu não tinha pra onde ir. Eu não me identificava com o teatro que era feito em Recife. Então fui morar com um amigo, que tinha saído do grupo ainda em Petrolina e montei meu primeiro espetáculo solo, que é o que eu venho fazendo até hoje.

Decripolou...
Esse trabalho foi um divisor de águas. Eu peguei a força do teatro que eu aprendi, o teatro pré-expressivo, pesquisado a fundo mesmo, e comecei a pesquisar a cultura popular. Com isso, eu comecei a trilhar um caminho próprio, a fazer o teatro que eu quero. Foi quando eu descobri que meu avô era um contador de histórias, fui descobrindo a força das brincadeiras populares, vendo que o meu palhaço não era aquele europeu que eu vinha estudando, mas o Mateus do reizado e aí tomei o caminho oposto do teatro que eu vinha fazendo. Então montei o espetáculo Decripolou Totepou, que é uma abreviação de ‘De Crianças, Poetas e Loucos Todos Temos um Pouco’. E a personagem é a palhaça Bandeira.

...Totepou
Com esse espetáculo eu me encontrei de verdade. Eu escolhi o teatro que eu queria e isso abriu as portas do mundo pra mim. Eu fui fazer temporada na Europa, quando voltei, já tinha pauta no teatro que eu quisesse em Recife. Decidi ir morar no Rio de Janeiro, fui pro Chile, passei um ano lá e resolvi olhar novamente pra cá, pra meu interior. Pouco tempo depois que eu sai de casa, minha mãe se aposentou e veio morar no sítio com meu pai, aqui na Ingazeira, que passou a ser minha base, toda vez que eu vinha visitá-los. E a cada momento que vinha fazia oficinas, ia nas escolas, nos terreiros... já vivenciava muito forte esse retorno.

Cordelina
Já depois desse reencontro com minhas raízes, nasceu meu segundo trabalho solo, que é Cordelina, um espetáculo totalmente inspirado no sertão. Cordelina é uma boneca com cabeça de cabaça que conta história de um pé de angico, real, que tem toda uma relação com minha infância. Com ela eu conto a história de Lampião e Maria Bonita, recito cordéis e outras coisas sertanejas. Com Cordelina foi que eu decidi, definitivamente, voltar pra cá. Eu me questionava por não saber recitar, não saber aboiar, não conhecer gente como Dedé Monteiro, enfim, é essa fonte de pesquisa que passou a me interessar.

Vaca
Durante as dificuldades, eu não contava nada pra minha família. Eles nunca entenderam muito bem o que era teatro, nem porque essa minha decisão. Depois eu fui contando, meu pai foi entendendo, mas acreditando que eu continuava passando necessidades. Como ele é agricultor, mora no sítio, pra eu convencê-lo que dava pra viver de teatro, eu tive que comprar uma vaca. Era a linguagem que ele entendia. Eu perguntei: “quanto é uma vaca boa?” Ele disse: “uns R$ 1.500,00.” Eu fiz uma temporada do Decripolou e quando voltei pra casa, eu trouxe R$ 1.800,00. Aí disse: “tome, pai. Compre uma vaca pra mim. E eu quero uma melhor do que aquela que o senhor falou.” (gargalhadas)

Vida 
Hoje eu olho pra quem tá começando e digo que dá pra fazer qualquer coisa. Mas que o principal é descobrir qual o teatro que lhe identifica. Alcançando isso, tudo vai dá certo e cada um vai conseguir viver bem, fazendo o que gosta. Claro que agora é mais fácil pra mim dizer isso, mas eu tô aqui, vivendo, encontrada comigo mesma, com minhas raízes, e me redescobrindo também. Eu pesquiso muito o sagrado feminino, faço uma ligação disso com a natureza e me sinto totalmente protegida, envolvida e motivada. Claro que tudo vem com o tempo e com a maturidade, não dá pra querer que uma pessoa jovem alcance isso. Mas hoje, eu tenho consciência de que eu posso estar em qualquer lugar e fazer um teatro universal.

Leia a revista na íntegra: goo.gl/vrxME2