Um reino na comunidade

Texto Uilma Queiroz | Foto Claudio Gomes

Santo Antônio II, comunidade rural, onde o grupo de jovens Juventude Encontro com Cristo (JEC) convidou pessoas mais experientes para juntos salvaguardarem elementos de sua identidade e um patrimônio cultural do Pajeú e do Brasil, o Reisado. Chegamos à Associação de Agricultores e Agricultoras do Santo Antônio II. Na manhã de um domingo de outubro para um evento que reuniu contação de estórias, capoeira e reisado. Era a reinauguração da Arca das Letras, biblioteca pública, de pequeno porte, também sob a coordenação do grupo de jovens. Evento feito pela comunidade para a comunidade.

Aliás, ‘comunidade’ é uma palavra que se repetirá muitas vezes ao longo do texto, pois é esse sentido que vimos no grupo, no reisado, na associação, na Arca das Letras. Não é apenas um sítio, uma família, um povoado, nos pareceu de fato uma comunidade, no sentido de pessoas que se unem por causas comuns.

Uma dessas causas é o reisado, essa arte que liga não só essa comunidade do município de Afogados da Ingazeira a si mesma, como também a outra comunidade vizinha, Pedra D’água de Carnaíba. Conectadas pelo propósito de manter viva essa cultura, juntando mestres e cantigas. Esta fusão reuniu a vontade da juventude em resgatar a cultura raiz com a tradição de mais de 70 anos do Reisado dos Vieiras, o qual foi inspiração para outros grupos de reisado, a exemplo do próprio grupo de Santo Antônio II.



Quando perguntados se o reisado ajuda na união da comunidade, de pronto respondem coletivamente: “Sim, contribui muito para a união do pessoal, pois a gente junta a comunidade para assistir, serve de graça, principalmente para os mais idosos”. Tanto que a comunidade participa não apenas nas performances e na plateia, mas alfaiates da família costuram o figurino que faz referência aos trajes de guerra romana, composta por saiotes, camisas, e meiões, que o grupo enfeita com espelhos, fitas e gliter, junto com as coroas.

A composição mescla diversas faixas etárias e o interesse do Grupo de Jovens da Comunidade, que há mais de um ano incorporou o reisado a suas atividades artísticas e culturais, o que enche nosso peito pajeuzeiro com a esperança de que essa manifestação continue estampando nossos olhos de cores, nossos ouvidos de cantigas e nossas mentes de estórias e histórias.

O reisado é uma mistura de várias manifestações artísticas, como dança, música, canto, poesia e teatro, que veio de Portugal. Lá era uma encenação típica dos festejos natalinos, que fazia referências às guerras romanas, aqui, durante o processo de colonização foi sendo modificada, adaptada a cada contexto. No Pajeú os versos falam também de seca:
“Tô vendo a hora o planeta anunciar / Que no sertão vai faltar água / Nós vamos beber do mar / O homem é mal / Só bota a culpa no machado / A floresta tá pedindo / Pra ninguém lhe assassinar”

“Uma das novas canções fizemos com a seca”, disse seu Geraldo Higino, introduzindo a cantiga acima. Ele é um dos mestres há mais de 30 anos. Essa cantiga está relacionada diretamente com os impactos da estiagem na vida da comunidade rural, pois é formada majoritariamente por agricultoras e agricultores, como enfatizam: “agricultura e reisado são os entendimentos da gente. Sai da agricultura pro reisado. Do reisado pra agricultura.”

A viola de seu Heleno entoa as canções em suas dez cordas. É o único instrumento que acompanha os versos cantados, que são anunciados pelo mestre Zezito e repetidos pelos demais integrantes. O mestre diz que quando ele começou o instrumento usado era a sanfona de oito baixos. “Era meu avô quem tocava oito baixos na Itã. Depois tinha um tio meu que tocava viola, era Saturnino, ai ficou eu, comecei também e estou até hoje”, diz Heleno, com sua viola dependurada no pescoço.

Segundo Geraldo, o instrumento é a maior dificuldade de perpetuação dessa manifestação, pois apenas seu Heleno o desempenha. E quando ele não mais puder tocar não terá quem substitua. Ele se coloca a disposição para ensinar, mas denuncia pouco interesse da juventude para essa função. “Tô pelejando para ensinar a alguém”, diz o músico.

Antes do início do evento conversamos um pouco na calçada da igreja da comunidade. A fala dos jovens quase não foi ouvida, os mais velhos nos explicaram a formação do grupo e tudo mais, no entanto, na apresentação, a força e empolgação do desempenho das moças e rapazes nos impressionaram, pois não estavam apenas interpretando batalhas, mas pareciam guerrear defendendo sua comunidade.

Atualmente encenam o reisado mais resumido, devido ao tempo que são disponibilizados para as apresentações, isso faz com que a maioria dos integrantes não saiba encenar todas as partes. Apenas o mestre Zezito diz que sabe interpretar cada papel. “Se for para brincar completo apenas um sabe, eu, porque eu já brinquei de tudo (animal, figura e coice) que são as classes de personagem, de burrinha, jaraguá, boi, velha, gentim, mateu, rei, mestre, embaixador, filas, pois eu comecei a brincar tinha 12 anos.”

No reisado, que tem a embaixadora Edvânia, as mulheres só passaram a participar nos anos 2000, devido ao conservadorismo patriarcal. Vânia, como é conhecida, é elogiada pelo Rei Geraldo e afirma: “Participo desde antes do resgate do grupo jovem, e continuo porque gosto.”. Outras moças participam também da encenação nas filas, sendo atualmente um grupo misto.

O grupo se apresenta em qualquer época do ano, não se limitando às festividades natalinas. Aliás, o período mais importante para as apresentações são as festividades de Santo Antônio II, no início do mês de junho, na comunidade.

Na encenação, duas fileiras se formam, uma azul outra vermelha, adversárias, para encenar as batalhas, as cortes. Mas, na realidade, o grupo está unido pela sobrevivência de sua identidade.

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