Um retirante artesão

Texto William Tenório | Fotos Thiago Caldas



Há alguns meses ganhei de presente de Alexandre Morais uma escultura em madeira de uma mulher negra e esguia que caminha com uma lata d’água na cabeça apoiada com a mão direita e com uma foice na mão esquerda. Na base retangular que serve de apoio para a peça está entalhado o nome do artista que a produziu, Jonas, escrito em letras de forma com o S começando em baixo do J. Acho a peça linda e não fazia ideia de onde havia sido produzida, até que em uma das gravações do Cultura e Coisa e Tal descubro que Jonas mora em Iguaraci, ou seja, é um pajeuzeiro.



Alguns dias depois ligo pra Thiago e partimos para Iguaraci. Com as informações que Alexandre havia nos passado não foi difícil localizar a oficina/ateliê de seu Jonas. Com as portas abertas ele conversava com um vizinho enquanto trabalhava. Ao ver o carro foi à porta para nos receber. Não havíamos ligado e não nos conhecíamos e mesmo assim de pronto ele topou conversar com a gente.

Seu Jonas Moreno tem 66 anos, é Natural de Afogados da Ingazeira, ou melhor, é “registrado em Afogados”, como ele mesmo diz, isso porque em 1950, Iguaraci era um povoado subordinado à Afogados da Ingazeira e o cartório ficava na sede.

O ofício começou como brincadeira ainda na infância. “Desde moleque que eu trabalho com madeira”, lembra. Produzindo seus próprios brinquedos como caminhões e carros de boi, isso quando sobrava tempo, pois a atividade principal da família era a agricultura. “Nós crescemos trabalhando na agricultura, ainda hoje trabalho na agricultura, mas o trabalho principal que eu tenho agora é como artesão”. Mas não se engane, o pai dele, Severino Lau, também era artesão. “Meu pai fazia colher de pau e eu aprendi fazendo colher de pau”.

Pergunto quando foi que ele percebeu que poderia ganhar dinheiro com o artesanato. Ele ri e, brincando, responde: “pra ganhar dinheiro eu não percebi ainda”, mas reconhece que foi no artesanato que criou os filhos. “O que eu tenho hoje, provavelmente, arrumei com o artesanato, agricultura não dá dinheiro a ninguém, só dá o feijão quando chove, o milho quando chove, então eu optei pelo artesanato”. A atividade tem posto o pão à mesa desde 1979, ano de seu casamento com dona Maria, com quem tem quatro filhos.

Com a virada do século se aproximando seu Jonas resolve dar uma guinada na vida e se mudar para a capital do Estado. “Eu fui embora para Recife nos anos 2000. Passei sete anos lá”. E durante esse período ele e a família viveram do seu trabalho como artesão, conseguiram contatos e fizeram uma boa freguesia na cidade. “Ainda hoje eu vendo lá”.

Mas o tempo passou e seu Jonas voltou para Iguaraci, onde se dedicou à produção das peças que geraram nosso encontro, os retirantes, figuras de homens e mulheres esguias caminhando e sempre carregando alguma coisa, seja uma foice, uma lata d’água ou um fecho de madeira, e por vezes com uma criança.

Pergunto: de quem foi a ideia dos retirantes? E ele responde: “quem criou foi um sobrinho meu que mora em Sertânia”. O sobrinho é Marcos Paulo, artesão sertaniense reconhecido dentro e fora do Estado e que recentemente teve algumas de suas peças como objeto de cena em uma das novelas da TV Globo.

Hoje com 66 anos, seu Jonas trabalha só e mais uma vez rindo afirma: “eu trabalho toda hora”. Ele diz que “a arte é uma terapia. Eu não deixo de fazer nunca”, e assim, mesmo sem encomenda ele está sempre produzindo porque há procura. Pergunto: qual a produção mensal? “Rapaz quando eu não me ‘impaio’ em outras coisas eu faço umas vinte peças no mês”.

A madeira, matéria prima para o trabalho é umburana, extraída pelo próprio artesão. “Umburana é coisa que aqui no Pajeú tem, eu tirei muito aqui e no Moxotó, tinha muita lá em Sertânia quando comecei a trabalhar”. Após a extração a madeira é serrada em tábuas de aproximadamente três centímetros de espessura onde serão desenhados os moldes e cortados na serra tico-tico, única parte do processo que utiliza equipamentos elétricos.

O entalhamento é todo feito à mão com a ajuda de uma faca. Em seguida a peça é lixada e por fim recebe uma cera que além de impermeabilizar dá um ar de envelhecida à madeira. Antigamente as peças eram pintadas à mão, hoje segundo seu Jonas, os clientes preferem elas mais rústicas.

Após o fim da conversa, já com o gravador desligado, vejo no canto da mesa um cavalo de madeira entalhado de forma realista, pergunto se foi ele quem fez. A resposta é afirmativa, e isso me leva imediatamente a uma lembrança da minha infância. Aquele homem a minha frente era o mesmo que vendia réplicas de carros de bois em madeira nas festas de final de ano na praça de Afogados da Ingazeira e que por muita insistência meu pai me comprou um. O mundo é realmente muito pequeno.

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